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Riciere Teixeira:
Sertões

“Meu luar não se foi. Muitos manos ficaram. Nem tudo se foi.” 

(Wilson Aragão: Sertões, Sertões)

 

Nos conceitos da geografia e da tradição literária o sertão é o longe, o desconhecido, o interior. Tudo que é considerado distante do litoral, dos centros urbanos, do mar. Grande parte dos sertanejos sonha com o mar. Já a maioria dos litorais desconhece o sertão. Disso resultam concepções equivocadas sobre a terra e o ser sertanejo, fundamentadas em preconceitos históricos. 

 

Mas, os sertões não estão afastados de nada! Há tesouros imensuráveis nos universos das culturas sertanejas. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

 

A civilização, o discurso a respeito do progresso e a globalização promoveram o maior êxodo humano da história, dos campos às cidades e das periferias do mundo aos grandes centros urbanos, mas não conseguiram solucionar o problema das solidões. Quem dirá conseguirão destruir os sertões? A cada dia mais potentes as palavras de Guimarães Rosa: “O sertão está em toda parte”. “O sertão é do tamanho do mundo”. “O sertão é dentro da gente”. 

 

Se ainda nos faltam recursos materiais, grande parte se deve à má distribuição das riquezas pelos governos centrais, que muito arrecadam de todos e desconsideram as necessidades locais ao repartirem os recursos. Sobram-nos coragem e riqueza de espírito para recriarmos o mundo. Os sertões são recriados pelos sertanejos há séculos. 

 

Neste sentido, Belchior, cantor e compositor brasileiro, proclama em sua canção: “Não, eu não sou do lugar dos esquecidos. Não sou da nação dos condenados. Não sou do sertão dos ofendidos. Vocês sabem bem. Conheço o meu lugar”. 

 

Consciente deste meu lugar, concebi a presente exposição de artes visuais intitulada Sertões, composta por um conjunto de telas pintadas a óleo, que apresentam um certo imaginário criado a partir de referências físicas e sensoriais de um sertão da Bahia, de onde venho, em diálogo com alegorias do meu sertão interior recriadas a partir de um olhar iluminado por uma espécie de filosofia da esperança, através da qual tintas e cores dão luz e voz a sensações e sentimentos, recria memórias e propõe ressignificação de sentidos. 

 

Orientado pela poesia do poeta Chico D’Alma que diz: “Hoje não quero o mar, suas ondas vitalícias, o que não é mar nem areia. Hoje, o meu sertão interior, ancoradouro de tudo. De onde parto a todas as coisas. Aonde tudo vem morrer e floresce” e observando as palavras de Bertolt Brecht que exorta àquele que deseja ser universal para que fale da sua aldeia, penso que este trabalho alcançará os corações de quem interagir com as obras, vez que parte de um sentimento de humanidade e fala do humano para o humano. 

 

Deus tem sido crespo e doce com nosso povo. 

 

Riciere Teixeira 

Brasília, 2019